El cuento es muy sencillo
usted nace
contempla atribulado
el rojo azul del cielo
el pájaro que emigra
el torpe escarabajo
que su zapato aplastará
valiente
usted sufre
reclama por comida
y por costumbre
por obligación
llora limpio de culpas
extenuado
hasta que el sueño lo descalifica
usted ama
se transfigura y ama
por una eternidad tan provisoria
que hasta el orgullo se le vuelve tierno
y el corazón profético
se convierte en escombros
usted aprende
y usa lo aprendido
para volverse lentamente sabio
para saber que al fin el mundo es esto
en su mejor momento una nostalgia
en su peor momento un desamparo
y siempre siempre
un lío
entonces
usted muere.
Mario Benedetti (1920). Próximo prójimo (1965).
segunda-feira, 30 de março de 2009
quinta-feira, 5 de março de 2009
Saudade, de Patativa do Assaré (que hoje completaria 100 anos)
Saudade dentro do peito
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.
Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.
Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.
Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.
A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.
Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré (1909-2002). Ispinho e Fulô (2001).
É qual fogo de monturo
Por fora tudo perfeito,
Por dentro fazendo furo.
Há dor que mata a pessoa
Sem dó e sem piedade,
Porém não há dor que doa
Como a dor de uma saudade.
Saudade é um aperreio
Pra quem na vida gozou,
É um grande saco cheio
Daquilo que já passou.
Saudade é canto magoado
No coração de quem sente
É como a voz do passado
Ecoando no presente.
A saudade é jardineira
Que planta em peito qualquer
Quando ela planta cegueira
No coração da mulher,
Fica tal qual a frieira
Quanto mais coça mais quer.
Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré (1909-2002). Ispinho e Fulô (2001).
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Canção para José Arcila em seu début
Na arena gris
da Plaza de Manizales:
Manizales, o torero;
Manizales, o país.
...e José Arcila neste onze de janeiro toma alternativa.
Manizales, o torero;
Manizales, um país.
“Manizales, Manizales!” gritam todos.
um orgulho e um sufoco.
...e lidia como sabe; lidia como quis
a mãe que guarda-lhe de novo a vida
abraçada a seu sombrero.
seu padrinho De La Puebla,
El Juli, seu testigo;
Como quisemos toda a Plaza de Toros.
...se chama José Arcila e corta duas orelhas...
Manizales, o torero;
Manizales, o país.
“Manizales!” gritamos todos;
“Manizales!” gritaria até o touro
vencido na arena gris.
da Plaza de Manizales:
Manizales, o torero;
Manizales, o país.
...e José Arcila neste onze de janeiro toma alternativa.
Manizales, o torero;
Manizales, um país.
“Manizales, Manizales!” gritam todos.
um orgulho e um sufoco.
...e lidia como sabe; lidia como quis
a mãe que guarda-lhe de novo a vida
abraçada a seu sombrero.
seu padrinho De La Puebla,
El Juli, seu testigo;
Como quisemos toda a Plaza de Toros.
...se chama José Arcila e corta duas orelhas...
Manizales, o torero;
Manizales, o país.
“Manizales!” gritamos todos;
“Manizales!” gritaria até o touro
vencido na arena gris.
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
O sono da razão produz monstros (capricho 43), de Francisco de Goya y Lucientes
terça-feira, 28 de outubro de 2008
Lusco-fusco
Um bando de cachorros, com focinhos baixos, rastejavam suas narinas em busca de restos. A marquise cansada ameaçava cair. Até quando? O carro parado. Mais nada parado. Os pedaços de jornal velho, o reflexo da grande poça d`água oval, os cachorros, a marquise. Mas os dois não viam além do vidro. Ignoravam o que passava lá fora. Os olhos muito próximos. Os queixos trêmulos. De maneira diferente mas ambos trêmulos. Ele, a mão direita na alavanca de freio, como que mantendo a âncora fincada mas com total controle da hora de zarpar. Ela com as pernas cruzadas. O sexo escondido e sepultado por baixo da saia azul.
-Não faça do tempo parte da sua desculpa por não viver.
-Não filosofa que isso me irrita.
-Não estou filosofando. Falo apenas o que você deveria fazer: admitir isso tudo.
-Não preciso de babados, floreios. Posso ser cru e verdadeiro.
-Não faz tanto tempo assim. E até agora nada.
-Não vejo em você nenhuma vontade em ver. Realmente enxergar.
-Quanta negativa! Não percebe que todas suas frases começam com "não".
-Não. Estava prestando atenção às suas.
A âncora erguida, de maneira brusca.
Latidos e gemidos. Os cachorros ao redor da lata virada. Um resto de carne putrefata e pequenos rosnares.
-Não faça do tempo parte da sua desculpa por não viver.
-Não filosofa que isso me irrita.
-Não estou filosofando. Falo apenas o que você deveria fazer: admitir isso tudo.
-Não preciso de babados, floreios. Posso ser cru e verdadeiro.
-Não faz tanto tempo assim. E até agora nada.
-Não vejo em você nenhuma vontade em ver. Realmente enxergar.
-Quanta negativa! Não percebe que todas suas frases começam com "não".
-Não. Estava prestando atenção às suas.
A âncora erguida, de maneira brusca.
Latidos e gemidos. Os cachorros ao redor da lata virada. Um resto de carne putrefata e pequenos rosnares.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Zona Sul
“Meus amigos,
Não seremos nós os que mudaremos o mundo. Não. Somos apenas reféns do mundo. O mundo nos constrange diariamente. Não podemos ser fortes o suficiente para o mundo. Não... Não seremos nós a mudarmos este pobre mundo. Somos levados pelo mundo como areia ao vento, somos pequenos, somos fracos. Somos massa de manobra, somos os que não fazem. Somos, enfim, os que se contentam com um punhado de réis em troca de algum conforto. Somos os liderados. Somos os que não fazem diferença.”
- Mas como assim? Se tenho um senso crítico apurado, se sou um dos que não pára de contestar, de reclamar? Se tenho instrução e sou indignado?
- Pois eu que te ensinei a reclamar, mas te ensinei a reclamar sentado da tua poltrona, para não esqueceres que és um inútil de merda. Tua reclamação é paraplégica, como será inócua tua vida. Nem pensas em te levantar, porque teu medo de cair é maior que a tua razão, e aos poucos teu medo vai virando tua razão. E em breve tua razão não será mais do que teu próprio medo. E fui eu que te ensinei a ter medo. Medo de levantar, medo de andar. Medo de tudo.
Não seremos nós os que mudaremos o mundo. Não. Somos apenas reféns do mundo. O mundo nos constrange diariamente. Não podemos ser fortes o suficiente para o mundo. Não... Não seremos nós a mudarmos este pobre mundo. Somos levados pelo mundo como areia ao vento, somos pequenos, somos fracos. Somos massa de manobra, somos os que não fazem. Somos, enfim, os que se contentam com um punhado de réis em troca de algum conforto. Somos os liderados. Somos os que não fazem diferença.”
- Mas como assim? Se tenho um senso crítico apurado, se sou um dos que não pára de contestar, de reclamar? Se tenho instrução e sou indignado?
- Pois eu que te ensinei a reclamar, mas te ensinei a reclamar sentado da tua poltrona, para não esqueceres que és um inútil de merda. Tua reclamação é paraplégica, como será inócua tua vida. Nem pensas em te levantar, porque teu medo de cair é maior que a tua razão, e aos poucos teu medo vai virando tua razão. E em breve tua razão não será mais do que teu próprio medo. E fui eu que te ensinei a ter medo. Medo de levantar, medo de andar. Medo de tudo.
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