Casal entrelaçado após o orgasmo. Ele ainda dentro dela:
- Tenho tido muita pressão. Muita preocupação na cabeça; muito trabalho, contas pra pagar, mulher enchendo o saco, filho pequeno... muita coisa. Às vezes parece até que eu vou sufocar.
A mulher lhe beija o rosto suavemente.
E ele:
- Você me dá vontade de respirar.
Sexta-feira, 3 de Julho de 2009
Sexta-feira, 19 de Junho de 2009
Creare (ou o homem que reescreveu a bíblia)
Isso já aconteceu. Foi daqui a alguns milhares de anos. O homem sentou-se à frente de uma máquina que nos remeteria a um computador como os de hoje (muitíssimo mais evoluída, é claro) e pôs-se a redigir. Começou pelo fim, o Apocalipse. Mas parou. E como o mundo já tinha acabado, logo suprimiu este livro. Há quem dirá que neste momento pensou em desistir da empreitada. O fato é que a partir daí engrenou numa ininterrupta rotina de 100 dias e 100 noites (que naquela época equivaleriam a umas 50 semanas atuais), incessantemente debruçado sobre o que seria sua obra. A obra. O homem não levou nada à boca neste período, tampouco piscou os olhos ou sentiu cansaço. Só redigiu e redigiu. Isso já aconteceu. Foi daqui a alguns milhares de anos. O homem sentou-se à frente de uma parede que nos remeteria a uma caverna como as de hoje (muitíssimo parecida, é claro) e pôs-se a pintar. Começou pelo início, o Gênesis. Mas parou. E como o mundo não tinha começado, desfez o que já tinha sido pintado. Há quem diga que neste momento pensou em desistir da empreitada. O fato é que a partir daí engrenou numa ininterrupta rotina de 100 dias e 100 noites (que naquela época equivaleriam a uns 100 dias e 100 noites atuais), incessantemente debruçado sobre o que seria sua obra. A obra. O homem não levou nada à boca neste período, tampouco piscou os olhos ou sentiu cansaço. Só pintou e pintou. Isso ainda vai acontecer. Foi há alguns milhares de anos. O resto é a máquina indomada e a parede crua. E o entre.
Segunda-feira, 25 de Maio de 2009
Oftamologia
Z. - Que coisa maravilhosa que é enxergar! Poder através da percepção da luz definir formas, cores, texturas, profundidade... O sistema óptico é uma coisa elaboradíssima, uma verdadeira dádiva... No olho, por exemplo, a pupila, se contrai e se dilata de acordo com a luminosidade, conforme a necessidade. Funciona como uma espécie de filtro de luz. Aliás, sabia que pupilla em latim significa menina? A famosa menina dos olhos... Atrás dela está o cristalino que é a lente do olho, o que faz o foco propriamente falando. Depois, a retina é responsável pela formação da imagem, dando sentido à visão. Ela retém as imagens que passaram pelas outras partes do olho e faz uma espécie de tradução, como se fosse uma montagem, agrupando tudo... Lá na retina existem dois tipos de célula: os cones e os bastonetes, um percebe a luz e o outro as cores. As células chamadas cones percebem as cores, e quando existe alguma deficiência nessas células, ocorre o daltonismo. Essa anomalia não permite o reconhecimento de uma das três cores primárias: vermelho, verde e azul, que misturadas dão todas as outras cores. Não é verdade que o daltônico só vê o mundo em preto e branco, existem vários tipos da doença, sendo que esse tipo de daltonismo é um dos mais raros. Depois da retina, o nervo óptico recebe as informações que foram ordenadas ali e as manda para o cérebro. O processo é bem complexo se a gente considerar que enxerga tudo de forma imediata, automaticamente, às vezes, sem nem perceber.
Existe até um ramo da física dedicado ao estudo à visão: a óptica. Explica a reflexão, a refração... Sabia que a luz é uma onda eletromagnética? O reflexo nos espelhos, por exemplo, se dá por conta disso, a onda bate e volta. Então, num espelho plano a imagem não se distorce porque a onda...
Enquanto Z falava, passou uma morena curvilínea num vestido modelador, e a reação de A não foi menos do que acompanhar todo o seu caminhar com os olhos.
A. - Viu a morena que passou?
Z. - Ahn...? Não, nem vi.
A. - Cara, que gata!
Z. - ...
A. - Sobre o que você estava falando mesmo?
Existe até um ramo da física dedicado ao estudo à visão: a óptica. Explica a reflexão, a refração... Sabia que a luz é uma onda eletromagnética? O reflexo nos espelhos, por exemplo, se dá por conta disso, a onda bate e volta. Então, num espelho plano a imagem não se distorce porque a onda...
Enquanto Z falava, passou uma morena curvilínea num vestido modelador, e a reação de A não foi menos do que acompanhar todo o seu caminhar com os olhos.
A. - Viu a morena que passou?
Z. - Ahn...? Não, nem vi.
A. - Cara, que gata!
Z. - ...
A. - Sobre o que você estava falando mesmo?
Domingo, 24 de Maio de 2009
Vira-latas
Doze anos e estava apaixonado pela menina que sentava à sua frente na sala de aula. Certo dia, após as aulas, esperavam juntos na frente da escola a chegada dos respectivos pais. Então, passeando pela calçada vem um vira-lata, num estado de natural mal trato. O doze anos pensa em chamar a atenção da mocinha para a sua sensibilidade e afetividade com os animais: faz um carinho na fronte do cão que abana o rabo agradecido. A reação da menina é imediata: “ECA!!!” diz, repetindo no rosto a expressão de nojo. E o afetuoso, que nem era tão fanático por animais de estimação pensa: “vira-lata do caralho!”
Quarta-feira, 13 de Maio de 2009
Sexta-feira, 8 de Maio de 2009
Tony
Se fosse hoje, ele teria fugido. Nadado de costas. Ignorado qualquer apelo desesperado da superfície.
“Você devia saber, porra. Eu fico puto com isso. Nunca te deixei na mão, sempre fiz tudo por você e você ainda duvida de me pedir isso? Você devia ter me ligado na hora!”
Aberto mão de sua honra vaidosa, camuflada na água do romantismo, inutilmente usada como uma carapaça escamosa de segurança para seus atos.
“Caguei se ninguém ia fazer isso! Eu faço, sempre fiz. Nunca me importei com a opinião dos outros para nada. Não ligo, porra! Se eu quiser parar tudo, largar tudo e sacrificar minha vida por você, eu faço, merda!”
Mesmo sendo um jacaré menor que os outros, Tony achava que seu coração era maior.
“É amor mesmo, caralho. Amor! Eu amo! Foda-se! Tomar no cu todo mundo, porra! Faço e foda-se! Morro! E não tem nenhuma condição não. Eu não ligo pro que você fez! Esse amor é meu e eu dou! Dou minha vida, meu coração, tudo que eu tenho e caguei!”
Somente muito tempo depois, descobriu que era só mais um babaca verde com papo amarelo no mundo.
“Estou indo para aí agora, calma! Não fica assim, vai dar tudo certo. Eu dou um jeito, pode deixar. Sou eu, cara, o Tony. Claro que perdôo que besteira. Vai ficar tudo bem. Calma e agüenta até eu chegar aí. Eu te amo, é só isso o que importa. O resto a gente resolve fácil, você vai ver.”
Tony seria um merda de primeira. Ainda bem que o urubu comeu seu ovo antes de ele nascer.
“Eu te amo, porra... piranha.”
“Você devia saber, porra. Eu fico puto com isso. Nunca te deixei na mão, sempre fiz tudo por você e você ainda duvida de me pedir isso? Você devia ter me ligado na hora!”
Aberto mão de sua honra vaidosa, camuflada na água do romantismo, inutilmente usada como uma carapaça escamosa de segurança para seus atos.
“Caguei se ninguém ia fazer isso! Eu faço, sempre fiz. Nunca me importei com a opinião dos outros para nada. Não ligo, porra! Se eu quiser parar tudo, largar tudo e sacrificar minha vida por você, eu faço, merda!”
Mesmo sendo um jacaré menor que os outros, Tony achava que seu coração era maior.
“É amor mesmo, caralho. Amor! Eu amo! Foda-se! Tomar no cu todo mundo, porra! Faço e foda-se! Morro! E não tem nenhuma condição não. Eu não ligo pro que você fez! Esse amor é meu e eu dou! Dou minha vida, meu coração, tudo que eu tenho e caguei!”
Somente muito tempo depois, descobriu que era só mais um babaca verde com papo amarelo no mundo.
“Estou indo para aí agora, calma! Não fica assim, vai dar tudo certo. Eu dou um jeito, pode deixar. Sou eu, cara, o Tony. Claro que perdôo que besteira. Vai ficar tudo bem. Calma e agüenta até eu chegar aí. Eu te amo, é só isso o que importa. O resto a gente resolve fácil, você vai ver.”
Tony seria um merda de primeira. Ainda bem que o urubu comeu seu ovo antes de ele nascer.
“Eu te amo, porra... piranha.”
Quarta-feira, 29 de Abril de 2009
Cabo
É a história que aconteceu do beijo morte que se viu passou depois durou a vida enquanto existiu que houve para quem não compreendeu nem nunca esqueceu.
Ele, longo rabo reluzente, veio da água.
Ela, espinhos afiados, da terra molhada.
Ele, cabeça de barracuda, andou pelo mar com a água nos joelhos.
Era grande e o mar baixo.
Ela, mãos de garras, saiu da poça de areia molhada da imensidão.
Era grande e a paisagem infinita.
Seus caminhos duraram três semanas, contados desde que foram visto pela primeira índia.
Apareceram do nada. Nada mar e nada terra molhada.
Ao fim das três semanas pararam.
Ele, escamas lisas azuis, no beira-mar.
Ela, pele cascuda laranja, na beira da lagoa.
Pareciam não poder se desconectar de seus ambientes úmidos, ainda que se olhassem com independência do real, como se nada mais houvesse.
Estavam a menos de 150 metros de distância, e entre eles passava uma vila hesitante e alongada entre o oceanos e a lagoa.
A vila, agora, se dividia em duas, pois ninguém ousava cruzar a linha de olhares dos dois visitantes.
Os dois ficaram assim por 12 semanas. Fazendo poucos movimentos, sem nunca perder a conexão dos olhos.
A vila se adaptou à vontade implícita deles e recuperou alguma normalidade, em sua divisão. A ausência de homens facilitava isso.
No octogésimo sexto dia, a chuva caiu e eles andaram.
Ele, pênis alaranjado, levantou e começou a andar em direção a Ela, vulva azulada, que andava em sua direção.
A vila parou na chuva.
Choveu por 2 dias. Ao final da chuva, estavam a 30 metros um do outro.
O sol ardeu e secou a terra em 8 horas. Estavam a 15 metros um do outro quando não podiam mais se mover. Caíram para frente na areia seca.
Suas cabeças paralelas no solo, o olhar incessante.
Ele, dentes enormes e afiados, e Ela, boca minúscula borbulhante, se beijaram, mortos.
O suspiro final de suas bocas foi uma torrente de vento que levantou todas as índias do vilarejo do chão, e as engravidou. Até as meninas.
6 semanas depois, na próxima chuva, deram à luz a pequenos bebês gelatinosos que escalaram engatinhando os pingos de chuva até as nuvens.
E a cada nova chuva recebiam com alegria seus filhos das nuvens na vila.
Até que eles não mais vieram, suas mães morreram e nunca mais se falou sobre isso.
Apenas na chuva da memória ocasional que sempre tarda a cair.
Ele, longo rabo reluzente, veio da água.
Ela, espinhos afiados, da terra molhada.
Ele, cabeça de barracuda, andou pelo mar com a água nos joelhos.
Era grande e o mar baixo.
Ela, mãos de garras, saiu da poça de areia molhada da imensidão.
Era grande e a paisagem infinita.
Seus caminhos duraram três semanas, contados desde que foram visto pela primeira índia.
Apareceram do nada. Nada mar e nada terra molhada.
Ao fim das três semanas pararam.
Ele, escamas lisas azuis, no beira-mar.
Ela, pele cascuda laranja, na beira da lagoa.
Pareciam não poder se desconectar de seus ambientes úmidos, ainda que se olhassem com independência do real, como se nada mais houvesse.
Estavam a menos de 150 metros de distância, e entre eles passava uma vila hesitante e alongada entre o oceanos e a lagoa.
A vila, agora, se dividia em duas, pois ninguém ousava cruzar a linha de olhares dos dois visitantes.
Os dois ficaram assim por 12 semanas. Fazendo poucos movimentos, sem nunca perder a conexão dos olhos.
A vila se adaptou à vontade implícita deles e recuperou alguma normalidade, em sua divisão. A ausência de homens facilitava isso.
No octogésimo sexto dia, a chuva caiu e eles andaram.
Ele, pênis alaranjado, levantou e começou a andar em direção a Ela, vulva azulada, que andava em sua direção.
A vila parou na chuva.
Choveu por 2 dias. Ao final da chuva, estavam a 30 metros um do outro.
O sol ardeu e secou a terra em 8 horas. Estavam a 15 metros um do outro quando não podiam mais se mover. Caíram para frente na areia seca.
Suas cabeças paralelas no solo, o olhar incessante.
Ele, dentes enormes e afiados, e Ela, boca minúscula borbulhante, se beijaram, mortos.
O suspiro final de suas bocas foi uma torrente de vento que levantou todas as índias do vilarejo do chão, e as engravidou. Até as meninas.
6 semanas depois, na próxima chuva, deram à luz a pequenos bebês gelatinosos que escalaram engatinhando os pingos de chuva até as nuvens.
E a cada nova chuva recebiam com alegria seus filhos das nuvens na vila.
Até que eles não mais vieram, suas mães morreram e nunca mais se falou sobre isso.
Apenas na chuva da memória ocasional que sempre tarda a cair.
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