sábado, 5 de dezembro de 2009

Cotidiano, de Liniers


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Magdalena (Mompós)

O rio andava trazendo menos folhas ultimamente. Troncos, galhos e lixo também quase não se via. O fato não demorou a ser notado pela cidade. Começou num zumbido tímido entre os garotos do mercado público. Carregavam mercadorias, depenavam frangos e, por vezes, atiravam bolinhas de gude uns nos outros, numa adaptação ao jogo dos meninos educados.

Ernesto foi o primeiro a perceber. Costumava passar horas na mureta, os pés na água. Tinha em casa, enterrada perto do limoeiro, uma caixa de madeira com objetos trazidos pelo Magdalena. Atravessava o rio em braçadas curtas e frenéticas, num quase afogar. Escasseava as vezes que retornava com algo no bolso do short rasgado.

Gezebel se aproximou do menino. Ela mastigava restos do almoço. Ele continha um choro fino que vinha lhe importunando desde o amanhecer.

- Dona Dolores tropeçou no velho Batista.

O garoto não reagiu, emudecido por um doloroso nó na garganta. A menina insistiu:

- Eu ri. Todos riram. O velho se levantou assustado e ela fez aquela cara, com a bochecha inchada.

Ernesto secou os olhos na manga da camisa e se incomodou com o forte cheiro que vinha de sua axila. Fazia tempo sem sabonete. Ele pulou n`água, na emergência de dissimular as gotas que brotavam de seu rosto. Homem que chora é homem bêbado e ele não queria lembrar seu pai.

Gezebel estirou a mão direita, um dos joelhos na pedra, no que pareceu ao menino uma ordem, não uma oferta. Ele se agarrou à sua mão, desfrutando por segundos a bela imagem de seus jovens seios descansados na blusa de algodão. Um dia ela seria dele, estava seguro. Nem que por uma só noite, no armazém abandonado; os restos de fruta podre sob seus joelhos ralados.

- Dizem que daqui a pouco serão os peixes.
- Os peixes?
- A desaparecer.

O coração miúdo, dentro do menino. Seu corpo trêmulo escorrendo encolhido ao lado dela.Tudo que tinham fora presente do rio. Se ele morresse eles iriam pelo mesmo caminho. A menina parecia tranqüila; conformada.

- Meu pai me disse que na sua juventude eles pescavam os presentes do rio com finas varas de bambu. Os que vieram depois começaram a abusar. O Magdalena se cansou.

Ernesto sentiu uma pontada na coxa.Parou de tremer. Se levantou firme, a coluna envergada, e meteu a mão no bolso. Um caco de vidro verde. Uma trégua.

O menino escalou num pulo a bicicleta gigante pras suas pernas miúdas, e pedalou aflito pelas ruas de pedra. Ele tinha pressa em escavar perto limoeiro e arremessar a caixa de madeira de volta ao seu verdadeiro dono.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Cabo de la Vela, Departamento de La Guajira, Colômbia



Desde Riohacha, capital do departamento, toma-se um táxi até Uribia, coisa de uma hora de viagem. Em Uribia, é possível aboletar-se em uma das muitas caminhonetes que fazem o serviço de abastecimento da comunidade. Mantimentos, crianças remelentas, uma estrada sem pavimentação e poeira, muita poeira do deserto. Assim se viaja até Cabo de la Vela. Aqui na caminhonete somos todos Wayúu. De cores e de sol. Mais duas horas e chegamos, finalmente. O povoado: uma rua extensa, de um lado as casas, do outro o mar. Nunca choveu por ali é o que diz o chão.

(continua)

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Depois do gozo

Casal entrelaçado após o orgasmo. Ele ainda dentro dela:
- Tenho tido muita pressão. Muita preocupação na cabeça; muito trabalho, contas pra pagar, mulher enchendo o saco, filho pequeno... muita coisa. Às vezes parece até que eu vou sufocar.
A mulher lhe beija o rosto suavemente.
E ele:
- Você me dá vontade de respirar.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Creare (ou o homem que reescreveu a bíblia)

Isso já aconteceu. Foi daqui a alguns milhares de anos. O homem sentou-se à frente de uma máquina que nos remeteria a um computador como os de hoje (muitíssimo mais evoluída, é claro) e pôs-se a redigir. Começou pelo fim, o Apocalipse. Mas parou. E como o mundo já tinha acabado, logo suprimiu este livro. Há quem dirá que neste momento pensou em desistir da empreitada. O fato é que a partir daí engrenou numa ininterrupta rotina de 100 dias e 100 noites (que naquela época equivaleriam a umas 50 semanas atuais), incessantemente debruçado sobre o que seria sua obra. A obra. O homem não levou nada à boca neste período, tampouco piscou os olhos ou sentiu cansaço. Só redigiu e redigiu. Isso já aconteceu. Foi daqui a alguns milhares de anos. O homem sentou-se à frente de uma parede que nos remeteria a uma caverna como as de hoje (muitíssimo parecida, é claro) e pôs-se a pintar. Começou pelo início, o Gênesis. Mas parou. E como o mundo não tinha começado, desfez o que já tinha sido pintado. Há quem diga que neste momento pensou em desistir da empreitada. O fato é que a partir daí engrenou numa ininterrupta rotina de 100 dias e 100 noites (que naquela época equivaleriam a uns 100 dias e 100 noites atuais), incessantemente debruçado sobre o que seria sua obra. A obra. O homem não levou nada à boca neste período, tampouco piscou os olhos ou sentiu cansaço. Só pintou e pintou. Isso ainda vai acontecer. Foi há alguns milhares de anos. O resto é a máquina indomada e a parede crua. E o entre.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Oftamologia

Z. - Que coisa maravilhosa que é enxergar! Poder através da percepção da luz definir formas, cores, texturas, profundidade... O sistema óptico é uma coisa elaboradíssima, uma verdadeira dádiva... No olho, por exemplo, a pupila, se contrai e se dilata de acordo com a luminosidade, conforme a necessidade. Funciona como uma espécie de filtro de luz. Aliás, sabia que pupilla em latim significa menina? A famosa menina dos olhos... Atrás dela está o cristalino que é a lente do olho, o que faz o foco propriamente falando. Depois, a retina é responsável pela formação da imagem, dando sentido à visão. Ela retém as imagens que passaram pelas outras partes do olho e faz uma espécie de tradução, como se fosse uma montagem, agrupando tudo... Lá na retina existem dois tipos de célula: os cones e os bastonetes, um percebe a luz e o outro as cores. As células chamadas cones percebem as cores, e quando existe alguma deficiência nessas células, ocorre o daltonismo. Essa anomalia não permite o reconhecimento de uma das três cores primárias: vermelho, verde e azul, que misturadas dão todas as outras cores. Não é verdade que o daltônico só vê o mundo em preto e branco, existem vários tipos da doença, sendo que esse tipo de daltonismo é um dos mais raros. Depois da retina, o nervo óptico recebe as informações que foram ordenadas ali e as manda para o cérebro. O processo é bem complexo se a gente considerar que enxerga tudo de forma imediata, automaticamente, às vezes, sem nem perceber.
Existe até um ramo da física dedicado ao estudo à visão: a óptica. Explica a reflexão, a refração... Sabia que a luz é uma onda eletromagnética? O reflexo nos espelhos, por exemplo, se dá por conta disso, a onda bate e volta. Então, num espelho plano a imagem não se distorce porque a onda...

Enquanto Z falava, passou uma morena curvilínea num vestido modelador, e a reação de A não foi menos do que acompanhar todo o seu caminhar com os olhos.

A. - Viu a morena que passou?
Z. - Ahn...? Não, nem vi.
A. - Cara, que gata!
Z. - ...
A. - Sobre o que você estava falando mesmo?

domingo, 24 de maio de 2009

Vira-latas

Doze anos e estava apaixonado pela menina que sentava à sua frente na sala de aula. Certo dia, após as aulas, esperavam juntos na frente da escola a chegada dos respectivos pais. Então, passeando pela calçada vem um vira-lata, num estado de natural mal trato. O doze anos pensa em chamar a atenção da mocinha para a sua sensibilidade e afetividade com os animais: faz um carinho na fronte do cão que abana o rabo agradecido. A reação da menina é imediata: “ECA!!!” diz, repetindo no rosto a expressão de nojo. E o afetuoso, que nem era tão fanático por animais de estimação pensa: “vira-lata do caralho!”